RED HOOK TE DÁ ASAS.



Veja que coisa fofa estava hoje na porta do prédio. Uma asa de pombo. Deve ser coisa do cabeção. Hoje é sábado e Manhattam estava “bombando” como dizem por aí. Tinha muita gente e muita sacola. Sentei na Union Square e fiquei no meio da multidão analisando essa nossa espécie. Comprei uma camiseta essa com a frase da foto. É a melhor definição, podem acreditar. Isso aqui é um hospício chic, mas é isso aí Coca-Cola. E tem tanto rato no metrô que você acaba entendendo porque o símbolo da América é o Mickey. Eu já tinha usado essa? Não lembro. Tudo se repete. Muito bem, vamos aos fatos. O metrô aqui é como o metrô de São Paulo, no fim de semana algumas entradas das estações fecham. Fica funcionando apenas algumas entradas. Ontem eu desci em uma na Court St, Brooklyn e percebi que estava fechada. Havia uma senhora oriental que tentava a todo custo passar seu bilhete. Ela nao percebeu que estava fechada porque as grades dessa estação ficam depois da catraca e as catracas eletrônicas ficam desativadas. Fui tentar ajudar, no meu ridículo inglês e ela disse que não falava inglês. Arrisquei meu ridículo espanhol e ela riu. Comecei a gesticular e fazer mímica, mas ela não entendia, ou não confiava. Ela me levou até o mapa que fica pendurado em uma das paredes e apontou para o “você está aqui”. Só estávamos os dois naquela entrada. Eu sinalizei que devíamos sair e pegar o trem do outro lado da rua. Ela entendeu mas hesitou. No fim, acabou tendo que confiar em mim e me segui. Saímos da estação, esperamos o demorado farol da Court St abrir, atravessamos e então mostrei a entrada que estava aberta. Fomos até a catraca, nessa haviam várias pessoas e ela agradeceu e passou. Eu fiquei pois tinha que encontrar meu bilhete que por alguma razão, ou sem-razão, não estava na minha carteira. Encontrei o bilhete, dois aliás, na minha bolsa. Deixei as pessoas passarem e quando passei o primeiro fui informado de que não havia crédito. Passei o segundo e a mesma informação se repetiu. Então ouço um homem falando muito alto, olho para baixo, nessa estação você pode avistar a plataforma de embarque através de grades. Era um senhor oriental e ele falava comigo em seu idioma. Não conseguia entender, então ele apontou para a catraca. Eu olhei e lá estava a senhora me estendendo o seu tíquete através da grade. Agradeci profundamente. Fiz o gesto que os orientais costumam fazer para demonstrar gratidão. Não aceitei. Eu tinha dinheiro e precisava mesmo comprar o meu tíquete semanal. Esse pequeno gesto me tocou. Ela teve que subir toda a escadaria para ir me levar o tíquete e só queria retribuir minha ajuda. Bem, eu disse que Nova York não me impactou. Porque a arquitetura aqui segue os mesmos princípios da arquitetura católica. A arquitetura das igrejas. As igrejas tem suas grandes naves e seu pé direito altíssimo para fazer com que o homem se sinta pequeno. É a casa de Deus. Tudo deve impressiona-lo. Ele deve sentir-se pressionado e oprimido por sua arquitetura. Assim é Manhattam. O Deus é quase o mesmo. O bezerro de ouro, a moeda. Se você pesquisar um pouco sobre as inquisições verá que grande parte, a maioria, principalmente em Portugal e Espanha, das pessoas que foram para a fogueira eram judeus. Em Évora cerca de 90%. O interesse da igreja católica era se apropriar de suas posses, aproveitando para acusa-los daquilo que ela não aceitou ou se apropriou de sua filosofia. Para mim, a verdadeira diferença entre essas duas religiões e o que motivou tanto conflito está, meramente, na questão dos juros. Mas, essa é quase outra história. Os grandes edifícios e os juros altos não me impressionam. O que me toca são esses pequenos gestos. Como a senhora oriental subir todos aqueles lances de escada apenas para demonstrar a sua gratidão. Quando autografo um livro sempre escrevo essa palavra, gratidão.
Obrigado amigos,
Com gratidão,
Lourenço.